Antes de se tornar museu, a pequena construção junto à Cachoeira dos Marmelos participou de uma mudança que os moradores de Juiz de Fora podiam enxergar nas ruas: a chegada da iluminação elétrica. Inaugurada em 5 de setembro de 1889, a Marmelos Zero aproveitava a água do Rio Paraibuna para gerar energia.
Sua história reúne uma concessão municipal, a iniciativa de industriais, equipamentos importados e a transformação de um trecho do rio. O prédio preservado é a parte mais conhecida desse processo, mas o conjunto protegido inclui estruturas de geração, caminhos, a paisagem fluvial e espaços ligados à vida dos trabalhadores.
A concessão que começou com um projeto de iluminação a gás
Em 1886, a concorrência da Câmara para o serviço de iluminação foi vencida por Maurício Arnade, com uma proposta a gás. Bernardo Mascarenhas e Francisco Batista de Oliveira adquiriram a concessão e conseguiram mudar o contrato para adotar eletricidade. O novo acordo tinha duração de 35 anos.
Segundo o histórico da Memória da Eletricidade, Marmelos começou com 250 quilowatts de potência. A iluminação pública inicial reunia 180 lâmpadas; em 1891, outras 700 já atendiam usos particulares. A ampliação de 1892 elevou a potência a 375 kW.
Os números descrevem uma rede em expansão, não uma cidade inteira ligada de uma só vez. A relação entre esse investimento e as fábricas pode ser situada no contexto mais amplo da história do café e da industrialização de Juiz de Fora.
Fios, testes e dúvidas antes da festa de inauguração
A instalação não foi recebida apenas com entusiasmo. O livro Resgatando a memória de Marmelos, organizado por José Roberto Tagliati e publicado em 2025, recupera dúvidas sobre a rede e o possível perigo do cruzamento dos fios elétricos com os telefônicos. Mascarenhas respondeu a questionamentos na imprensa local.
O estudo registra uma experiência em 22 de agosto de 1889, seguida de ajustes antes da inauguração oficial de setembro. A festa ocorreu diante da tecelagem de Mascarenhas e teve banda de música e fogos. A celebração pública ajuda a entender por que a data ganhou lugar na memória municipal: o funcionamento da instalação podia ser percebido fora da casa de máquinas.
O mesmo livro registra limites dessa modernização. O crescimento da procura trouxe dificuldades de atendimento, reclamações e custos elevados. A luz não apagou as desigualdades da cidade; sua expansão envolveu decisões sobre rede, investimento e acesso.
O que significa o pioneirismo de Marmelos Zero
A Memória da Eletricidade identifica Marmelos como a primeira hidrelétrica da América Latina voltada à iluminação pública. O recorte é importante: evita confundir esse marco com experiências elétricas de outra natureza.
A unidade original deixou de gerar em 1896, mas outras usinas aproveitaram a cachoeira. A história da Marmelos Zero, hoje associada ao espaço cultural, é uma parte da trajetória do complexo.
O patrimônio inclui o caminho da água e os lugares de trabalho
O tombamento estadual, aprovado em 28 de março de 2005, alcança muito mais que a fachada do museu. O registro do Iepha-MG inclui a barragem, o posto do barrageiro, a subestação, as passarelas, os condutores de água e o trecho do rio com a queda. Também relaciona as usinas Marmelos I, I-A e II, a Vila Operária e a área do grêmio dos funcionários.
Essa abrangência permite ler o lugar como um sistema. A queda e as estruturas de condução explicam o aproveitamento da água; as instalações elétricas mostram outra parte da produção; a vila e o grêmio remetem às pessoas que trabalharam e conviveram ali. Olhar apenas para o edifício principal deixa de fora uma parcela importante do patrimônio reconhecido.
O conjunto fica na Estrada União e Indústria. O rio não aparece no tombamento apenas como cenário para fotografia: seu trecho e sua queda fazem parte dos elementos protegidos.
O museu guarda documentos e também uma réplica
Na apresentação do acervo feita em 2019, o responsável pelo museu na Cemig, Teodoro Jesus, descreveu uma réplica de gerador Westinghouse, um painel de controle, fotografias e documentos do tombamento. A distinção importa: uma réplica ajuda a explicar a tecnologia, mas não deve ser apresentada como a máquina original de 1889.
A relação de peças incluía a mesa e um relógio de Mascarenhas, uma carta sobre intervenção no Paraibuna e o livro de atas do conselho de 1889. Esses registros permitem aproximar a história da usina de decisões concretas: como a empresa se organizava, que obras pretendia fazer e de que modo usava o rio. Trata-se do acervo descrito naquela ocasião; a exposição pode mudar.
Como consultar o espaço antes de uma visita
A UFJF informou, em novembro de 2015, que o encerramento do convênio com a Cemig retirou do Centro de Ciências a administração do museu. Por isso, páginas antigas que atribuem a gestão à universidade não bastam para organizar uma visita hoje.
A página do Museu de Marmelos na Cemig informa o contato museumarmeloszero@cemig.com.br. O texto disponível é de junho de 2020 e ainda menciona a suspensão de visitas durante a pandemia; ele não confirma a agenda atual. Antes de se deslocar, solicite ao museu as condições de acesso e agendamento.
Para conhecer a história sem depender da visita presencial, o livro disponibilizado pela UFJF reúne capítulos sobre a formação da cidade, a eletrificação e o Paraibuna. Já o cadastro do Iepha permite identificar quais construções e trechos da paisagem integram o conjunto protegido.





